Três perguntas
Três perguntas para John Banville

O sr. diz que “Amphitryon”, de Heinrich von Kleist, é uma das maiores obras-primas da literatura europeia. O que leva um escritor a ambicionar uma releitura de algo que considera assim tão bem resolvido?
Todo artista se alimenta de outros artistas. Livros são feitos de livros. Eu tive Kleist em mente por toda a minha vida como escritor, ele é o maior gênio da literatura europeia, e me assusta que não seja tão conhecido, ao menos na língua inglesa. Depois de fazer uma versão de sua “Amphitryon” para o palco, comecei a pensar em escrever um romance que fosse baseado de forma muito próxima na peça. Não seria uma comparação. Eu quis fazer neste romance algo como James Joyce fez com a Odisseia, de Homero, em “Ulisses”. Acontece que “Os Infinitos” se tornou mais e mais autônomo, ganhou seu próprio tipo de narrativa, seu próprio tipo de mundo. Mas “Amphitryon” continua lá, como uma espécie de esqueleto. Não mais que um esqueleto –o livro se mantém sozinho. Se você nunca leu “Amphitryon”, ainda pode ler o livro sem que perca muita coisa.
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Como em “O Mar”, “Os Infinitos” tem a morte como elemento central para a narrativa. Por que o tema interessa ao sr.?
O filósofo Spinoza diz que o homem esperto só pensa na morte, mas toda as suas meditações são sobre a vida. A morte é o que nos dá o senso de estarmos vivos. Rex, o cão de "Os Infinitos", passa o tempo todo olhando para os seres humanos e tentando entender qual o problema com eles, e o problema é que eles sabem que vão morrer. Ele não tem o senso de mortalidade, mas os seres humanos têm. E essa é nossa tragédia e nossa glória.
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O sr. também escreve críticas de livros para suplementos de cultura. Como é a escolha de títulos?
Antes de tudo, acho importante ressaltar que o que faço não é crítica. Eu apresento novos livros aos leitores, faço muito essa distinção. O trabalho do crítico é situar a obra no cânone, já o resenhista dá sugestões ao leitor em potencial. Dito isto, eu costumava resenhar muita ficção, mas hoje não, porque ela me interessa menos. Homens velhos não leem muita ficção. Isso é estranho, mas é um fenômeno bem conhecido. Hoje acho até que escrevo mais ficção do que leio. Ainda acredito na ficção, é uma aventura maravilhosa, vários dos meus autores preferidos são de ficção. Mas, quando chega a certa idade, você se dá conta de que há livros que ou você lê agora, ou nunca mais poderá ler, então pego livros que não me atraíam quando eu era jovem e achava que tinha todo o tempo do mundo. Hoje leio muita história, filosofia, poesia, e também cartas, biografias. Acabei descobrindo que autores de não ficção podem ser estilistas maravilhosos, com livros de história ou biografias que valem muito mais pela linguagem do que pelo que você pode aprender com eles.
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Escrito por Raquel Cozer às 18h41
