A Biblioteca de Raquel

Raquel Cozer

 

Os livros que inspiraram os filmes do Oscar


"Os Descendentes", romance estreia de Kaui Hart Hemmings, é um livro surpreendente, revitalizante, irônico, audaciosamente cômico.

Isso se a gente confiar nos blurbs, as chamadinhas que as editoras pinçam cirurgicamente da imprensa para divulgar seus livros. Talvez elas ajudem em alguma coisa, se a gente não considerar que elas esquecem o contexto no caminho até a gráfica. Vendo a capa da edição original, em inglês (acima, à esq.), sem blurbs e com ilustração abstrata, eu não teria muita informação sobre o livro, a história de um rico havaiano que precisa lidar com suas terras e suas filhas. Mas daí vejo a capa inspirada no filme recém-indicado ao Oscar (acima, à dir.), tal como saiu no Brasil, e penso que preferiria que as informações da orelha bastassem.

Nunca vou me consolar com a temporada de livros com a capa do filme. E no entanto preciso admitir que, de outro modo, eu não teria ouvido falar no livro, lançado aqui faz duas semanas. Então dá para desconfiar de que a coisa atrai leitores a ponto de editoras como a Alfaguara, reconhecida pelas edições cuidadosas, recorrerem a ela com alguma frequência.

Isso não aconteceu ainda com "A Invenção de Hugo Cabret", de Brian Selznick, que originou o roteiro do longa em 3D homônimo de Martin Scorsese (cujo trailer me enche de vontade de nunca ver o filme). A capa não dá nenhuma pista de que dali tenha vindo um hit hollywoodiano. O livro infantil, que por aqui saiu em 2007 pela Edições SM, é uma linda, linda storyboard (ó eu dando margem para blurb) de mais de 500 páginas ilustradas em preto e branco. Não quero julgar o filme pelo trailer, mas dava para esperar que saísse desse livro mais do que o vídeo insinua.

Dos outros textos que originaram roteiros indicados ao Oscar, "O Espião que Sabia Demais", escrito em 1974 por John Le Carré, foi recém reeditado pela Record. Com a capa do filme, é claro. "Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game", de Michael Lewis, livro sobre beisebol que originou "O Homem que Mudou o Jogo", me interessa tão pouco quanto o do Le Carré. Está de bom tamanho conhecer esses só no cinema.

E aqui fazemos uma pausa para a gafe: tinha dito que "Tudo pelo Poder" era baseado em "The Ides of March", homônimo do filme em inglês. Nada a ver (o Márcio que alertou nos comentários). A origem é a peça "Farragut North", de 2008, sobre as primárias democratas em 2004. Abafem o caso.

Fui ler sobre os livros que originaram roteiros do Oscar porque me frustrei com a não indicação de "Precisamos Falar sobre o Kevin". Digo, os membros da Academia podem não ter gostado do filme (eles não entendem nada, é claro), mas, na teoria, o que faz um roteiro adaptado merecer a indicação é o fato de adaptar de forma inteligente o livro que o inspirou. De todo modo, considerando que em geral os votantes mal veem os filmes, seria esperar demais que eles lessem os livros também.

***

Considerei acima os filmes indicados a roteiro adaptado, mas, na categoria melhor filme, há outros que saíram de livros: "Tão Forte, Tão Perto", de Stephen Daldry, que teve como origem "Extremamente Alto e Incrivelmente Perto", de Jonathan Safran Foer; "Histórias Cruzadas", realizado a partir de "A Resposta", de Kathryn Stockett; e "Cavalo de Guerra", que Spielberg filmou a partir do livro de Michael Morpurgo.

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Escrito por Raquel Cozer às 23h12

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abibliotecaderaquelRaquel Cozer, 33, é jornalista especializada na cobertura de livros e repórter da "Ilustríssima".


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