Não tinha expectativa de tirar "Liberdade", de Jonathan Frazen, tão cedo da lista de livros a serem lidos. A verdade é que essa lista tende ao limbo (é mais fácil entrar que sair dela), mas me consola com seu efeito de transformar intenção em redenção --na linha "não é que não eu valorize, o tempo é que não deu trégua". Ainda mais para quem trabalha com livros, que raramente pode se dar ao luxo de atravessar 600 páginas sem motivo profissional imediato, já que sempre haverá outro na espera.
Dias atrás percebi que andava com tempo livre fora do horário de expediente (não contem para a chefia) e resolvi arriscar. O Gui tinha acabado de ler, num longo processo de "estou gostando", "não está rolando", "é bom", "é mais ou menos". A leitura dele envolveu tantos estados de espírito que me senti obrigada a tirar a dúvida. Arranjei até motivação profissional: afinal, o homem vem para a Flip.
Calhou de a leitura coincidir com um final de semana de febre, o que significa que tive dois dias para ler no sofá. E três madrugadas. Terminei às 4h de segunda para terça, depois do trabalho, caindo de sono, porque as últimas páginas de livros enormes sempre me incitam a terminar logo.
Não posso dizer que tenha terminado com raiva porque muito antes disso já tinha desistido da reviravolta que ninguém me disse que ia ter, mas na qual eu me fiava como explicação para aquele retumbante "livro do século" que o Guardian resolveu inventar. E não dá para jogar a culpa no Franzen, que até ficou incomodado com o confete todo (isso, mais a capa da "Time" que nenhum outro autor na década tinha merecido, mais o indesejado sucesso, outra vez, no clube do livro da Oprah).
"Liberdade" não entraria entre os meus dez melhores de 2011, se eu o tivesse lido no ano de lançamento. Apesar de às vezes eu reclamar da mania de metaliteratura ou de firulas afins, um romanção com esse orgulho do resgate realista me dá certo enfado. Cresci lendo coisas assim, então o realismo é algo que não procuro mais.
É engenhosa a descrição da sociedade americana ao longo de um punhado de décadas a partir da vida de uma família, mas sempre espero da literatura algo que me faça pensar em mais que no conteúdo explícito. Nesse sentido, não se pode dizer que Franzen não seja honesto --não tem palavra nenhuma por ali que não seja estritamente necessária para o que ele quer dizer. São 605 páginas sem nenhuma gordurinha (e, se pensarmos bem, muito da literatura ruim que se faz hoje é de gente que acha que um texto que não diz nada é literário se enganar na forma).
Depois do novelão familiar, a política fica ostensiva demais, talvez --os jovens que lucraram horrores em cima da guerra, os republicanos que usaram causas sustentáveis para encobrir interesses insustentáveis, os democratas que... ai. Talvez a melhor definição tenha sido a do Sérgio Rodrigues: "Liberdade" é democrata no conteúdo e republicano na forma. O que sei é que me incomodou o fato de concluir que reproduzimos no Brasil --tal como fizeram na Inglaterra-- um deslumbre que faz mais sentido quem é americano e se vê retratado ali.
Se posso concluir algo, é que "Liberdade" não é o meu romance do século, nem o dos 20 e tantos anos desde que aprendi a ler, mas talvez o fato de eu tê-lo atravessado em menos de três dias diga muito a favor dele. De todo modo, espero que não seja minha melhor leitura de 2012.
Lembra do "Organizing the Bookcase"? Ok, ninguém vai lembrar pelo título, até porque o título é um desses gerúndios que machucam a vista e a gente evita olhar, mas esse era o nome de um vídeo fofo com os livros passeando, em ritmo mexicano, pelas prateleiras. Entrou no ar no passado e publiquei no blog quando o blog ainda não morava aqui.
Quase um ano depois, o casal que criou aquele vídeo na sala de casa preparou um novo, desta vez usando uma livraria inteira em Toronto. Um trabalho nada simples.
Não há nada como um livro de verdade, eles concluem (ops, contei o final). Mas, hm, defina livro de verdade. Acabo de receber meu Kindle Touch e tenho a intenção de dominar o mundo com ele.
O maravilhoso mundo dos links. Via SuperPunch, um desses blogs cujos feeds eu não lembrava ter assinado, cheguei ao Dharblr, tumblr cujo nome nem saberia pronunciar (dárbler, assim como tâmbler?), mas que me fez descobrir dois projetos de ilustração bacanas de uma vez só.
Um deles é o One Hour Drawing, de onde saiu o homenzinho das cavernas lendo "A Origem das Espécies" acima. O autor, Dustin Harbin (que também assina o Dharblr, porque essa gente adora se multiplicar em páginas na rede), se compromete a fazer cada desenho que posta no Flickr em uma hora (muitas vezes demora mais que isso, ele admite, nunca menos, porque sempre dá para melhorar até completar uma hora), a partir de palavras sugeridas pelos leitores.
Alguns deles têm motivações literárias, e foi daí que tomei conhecimento do outro projeto, para onde eles foram feitos. Esse outro projeto é tão antigo, na verdade, mas tão antigo, que seria educado vocês fingirem que não é uma aberração eu só tê-lo conhecido agora.
Trata-se do Hey, Oscar Wilde! It's Clobberin' Time! (ei, Oscar Wilde! É hora do pau!), que publica ilustrações de uma infinidade de artistas interpretando seus autores, personagens e livros preferidos. Existe desde 1998 e está hoje em sua décima encarnação sem que eu tenha conhecido nenhuma das anteriores. O acervo é tão grande que eles têm uma monte de modelos de cabeçalho (basta atualizar o browser).
Seria mais legal só se eles não colocassem o título enorme com o nome do personagem/autor/história retratado, para dar a chance de a gente chutar. Alguns exemplos abaixo, para quem quiser tentar.
Legendas: 1) Arthur Conan Doyle, por Graham Annable; 2) "Carrie, a Estranha", de Stephen King, por Ryan Cody; 3) William S. Burroughs, por Ray Fawkes; 4) Berko Shemets, de "Associação Judaica de Polícia", de Michael Chabon, por Tom Fowler; 5) Don Delillo, por Sonny Liew.
Mulher e filho chorando (ou não) pela morte de Kim Jong-il, em dezembro
Saiu na "Ilustríssima" deste domingo texto meu sobre três livros que ajudam a entender a Coreia do Norte, país que voltou com força ao noticiário com a morte do líder Kim Jong-il, mas que, ainda assim, permanece uma incógnita --o que chega até o exterior em geral são apenas leituras críticas do teatro apresentado pelo regime norte-coreano.
Os livros são o sensacional "Nothing to Envy", escrito pela jornalista americana Barbara Demick a partir de depoimentos de refugiados norte-coreanos; a HQ "Pyongyang", que o cartunista canadense Guy Delisle publicou depois de passar dois meses num estúdio de animação na capital da Coreia do Norte; e o ensaio "The Cleanest Race", em que B.R. Myers, estudioso do país, mostra como a dinastia Kim usou a cultura para alimentar um sentimento de superioridade racial que, segundo ele, é inerente à população da Coreia.
Aliada, mas próspera, China é ameaça à Coreia do Norte
Barbara Demick foi correspondente do "Los Angeles Times" em Seul de 2001 a 2007, período em que entrevistou mais de cem dissidentes norte-coreanos para reportagens e para o livro "Nothing to Envy", de 2010 -por aqui, sairá em 2013, pela Companhia das LEtras. Também visitou a Coreia do Norte em diversas ocasiões. Demick falou por telefone à Folha de Pequim, onde é correspondente desde 2007.
Quais suas expectativas para a Coreia do Norte com a morte de Kim Jong-il? É possível imaginar mudanças? Não imediatamente. No momento, o novo líder militar é quem parece estar no controle. Mas esse país que estava fazendo barulho é muito mais fraco sem Kim Jong-il. Kim jong-un, o filho sucessor, é uma figura-chave, mas sem mudanças reais na economia o país não vai sobreviver. A única alternativa será reconhecer que o país ficou para trás na comparação com o resto da ásia e encontrar uma maneira de abrir a economia, talvez com a ajuda da China. Ou eles mudam a economia, ou colapsam. Não significa que a eventual ajuda da China possa evitar o colapso. Mas, de todo modo, mudanças são necessárias.
Embora não tenha sido essa a mensagem que eles passaram nas últimas semanas... Creio que eles estejam tentando mostrar que não haverá mudanças, avaliando primeiro sua força militar, confrontando a Coreia do Sul. Mas não vejo como Kim Jong-Un possa governar da mesma maneira que o pai. Se quer sobreviver como líder, precisa oferecer ganhos econômicos para o povo.
E ele terá poder para isso? Certamente, os militares têm o poder. E o tio de Kim Jong-un, Jang Song-thaek, tem o poder. O interessante é que Jang Song-thaek é considerado reformista por alguns. E há uma impressão, e isso é um boato político que corre na Coreia do Norte, o que pode significar que não seja verdade, de que ele gostaria de abrir a economia, mas Kim Jong-il não quis. É a percepção de muitos norte-coreanos, a de que Jong-il bloqueou a reforma. Então, Kim Jong-un, com Jang Song-thaek, ou junto com os militares, pode reconhecer a necessidade de crescer. Pode ser otimismo, mas creio nisso.
A conversa com a Coreia do Sul foi interrompida em 2008, e em 2010 houve o naufrágio do navio sul-coreano na costa norte, que a Coreia do Sul atribuiu a um ataque. É possível a evolução para um conflito? O naufrágio foi parte de uma linha política geral da Coreia do Norte, mas de fato os sul-coreanos não quiseram reagir, apesar de avaliarem que os norte-coreanos foram responsáveis. A Coreia do Sul tem muito a perder e, nessas situações, em que o norte tenta criar uma atmosfera de incerteza, sempre recua. Como economia moderna e desenvolvida, sabe que as tensões podem lhe ser danosas. Os sul-coreanos cortaram a ajuda ao norte, mas não houve resposta militar.
Como foi a interrupção das conversas entre os dois países? Desde que Lee Myung-bak se tornou o presidente da Coreia do Sul, em 2008, as relações ficaram mais difíceis. Myung-bak é conservador, encerrou a ajuda humanitária à Coreia do Norte, e eles não gostaram, é claro. Eles esperam que um governo de esquerda volte ao poder nas próximas eleições.
Essa posição afetou a forma como os sul-coreanos recebem os refugiados norte-coreanos, com os cursos de adaptação e os subsídios que você descreve no livro? Sim, afetou. O governo da Coreia do Sul tem sido mais receptivo aos dissidentes que governos anteriores. Tipicamente, os governos de esquerda na Coreia do Sul não foram tão receptivos, porque não querem irritar a Coreia do Norte.
No livro, você informa que no início da década havia 6.000 dissidentes norte-coreanos na Coreia do Sul e que os sul-coreanos mais jovens não são sensíveis à situação como eram seus pais. É possível que a população passe a rejeitá-los? Os refugiados já não são tão bem recebidos pelo povo sul-coreano, que sabe que sai caro para o governo assimilá-los. Não há impacto nos empregos, já que o número é pequeno, ainda não chega a 10 mil, mas eles não são bem recebidos como eram num passado recente. Porque não são mais novidade.
O livro descreve reações impressionantes na morte do fundador Kim Il-sung, com gente desidratada de tanto chorar, enquanto outros fingiam para não serem delatados. Agora, com a morte do filho dele, houve comentários sobre o governo ter pago mulheres para fingirem, mulheres inclusive mais saudáveis que a média do país. Não acho que tenham sido pagas, mas acho, sim, que a população de Pyongyang se sentiu encorajada a exagerar as emoções em frente as câmeras, para mostrar uma falsa tristeza, por imaginar que era o melhor a se fazer. Era visível que a maioria estava gritando e apertando o peito, mas com os olhos secos, sem nenhuma lágrima. Sobre parecerem mais bem-nutridas que a média, isso é o padrão de Pyongyang, a única cidade que a Coreia do Norte apresenta para o mundo. O governo não permitiria que pessoas de classes menos privilegiadas aparecessem na televisão.
Você fala no livro sobre como a força do governo veio da capacidade de isolar os cidadãos, Isso está mudando? Está mudando por causa da China. A fronteira entre China e Coreia tem mais de mil quilômetros, e muita informação acaba entrando, telefones celulares, filmes, DVDs, computadores... Foi o crescimento da economia chinesa que tornou difícil para a Coreia do Norte manter do lado de fora o mundo exterior.
Nesse contexto, não se pode imaginar uma espécie de reação popular, como no Oriente Médio? Eu até poderia imaginar algo assim. Bem, a população na Coreia do Norte é muito, muito mais controlada do que na Síria. Eu poderia imaginar mais algo como na Tunísia, quando uma pessoa protesta e a coisa acontece espontaneamente. Algo mais espontâneo do que organizado, porque não há uma oposição política organizada na Coreia do Norte, não há espaço para isso.
É ainda uma minoria que se sente prejudicada pelo governo? É difícil pôr em números, mas decerto é um número cada vez maior. Em especial aqueles que vivem perto da fronteira chinesa, porque eles podem ouvir a televisão estrangeira, são mais expostos ao mundo exterior. Curiosamente, a China é, apesar de um país aliado, uma das maiores ameaças, porque as pessoas que fogem da Coreia para a China acham que a China pode ser ainda mais pobre e descobrem que os chineses comem melhor e têm eletricidade. A exposição à China à muito perigosa para os ideiais do governo norte-coreano.
O livro mostra como a força do governo diminuiu a partir dos anos 90, já que a comida distribuída era o melhor meio de controlar a população e até de fazer uma espécie de censo, mas as rações minguaram. Sim, isso é muito forte. No passado mesmo a população estava muito mais preocupada em se portar da maneira mais correta possível, denunciando quem estivesse por perto e dissesse algo que pudesse ser ofensivo ao governo. Depois, com a fome, surgiu o mercado negro, e o governo fez vista grossa. Kim Jong-Il dizia que o mercado negro era perigoso para o socialismo, porque as pessoas descobriram que preferiam comprar a esperar presentes do governo, ofertas que poderiam nunca vir. Não há dúvida de que o governo está muito mais fraco nesse controle.
E o quão confiáveis são as estatísticas de morte por fome, se hoje nem o governo sabe pessoas vivem no país? Há uma série de estudos. O número é algo entre 1 milhão e 2 milhões de mortos pela fome desde os anos 90. Um dos motivos pelos quais é difícil calcular é que não é como a pessoa caísse e morresse de fome. A fome causa morte de diferentes maneiras. Algumas pessoas pegam doenças que seriam controláveis em outras circunstâncias, mas que matam na fraqueza. Então é difícil medir porque nem todos morrem de inanição, mas porque comem comidas substitutas, madeira, bagaços sem nutrientes. Fala-se em 2 milhões, mas é muito mais que isso. Se você vê a média de vida ao longo dos últimos 20 anos, você vê que aquele que morria com 70 agora morre aos 63, e crianças que seriam adultos morrem com dois ou três anos.
Com a pobreza, como anda a indústria de cinema em que Kim Jong-il tanto investiu? Hoje se faz muito poucos filmes, eles não tem mais dinheiro nenhum para isso, todo o dinheiro que têm investem nas ambições nucleares. Fui três anos atrás no festival de cinema de Pyongyang, e havia muito, muito poucos filmes de propaganda. Que, embora fossem de propaganda, eram uma distração para a maior parte da população; houve uma época em que se produziam mais de 40 filmes por ano.
Sendo uma jornalista que lidava com autoridades norte-coreanas, sabe se o seu livro repercutiu de alguma forma dentro do governo? Não ouvi nenhuma reação. Os norte-coreanos do goveno não passam muito tempo lendo o que se escreve sobre eles. Acho que o livro é bastante crítico a eles, mas tentei ficar longe dos estereótipos da Coreia do Norte. Para quem não cresceu sendo doutrinado a acreditar que Kim Il-sung e Kim Jong-il foram heróis, é muito simples tirar sarro do pensamento do povo norte-coreano, mas tentei levá-los a sério.
Você leu a HQ "Pyongyang", de Guy Delisle? Sim, não é ótimo? Eu adorei aquele livro.
Ele passa uma visão da população bem diferente da que você passa. Sim, acho que ele não teve oportunidade de conhecer as pessoas direito. Conheceu só Pyongyang, onde você conhece o que o governo quer que você conheça. Lembro-me de um oficial da Coreia do Norte que encontrei há alguns anos em Pequim e que me disse que os filmes ocidentais nunca mostravam os norte-coreanos como pessoas de verdade. O que eu fiz foi tentar isso, levá-las a sério. Eles podem até não gostar do resultado, mas não deveriam me criticar muito por isso.
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