Fórum das Letras: Bishop e o culto à celebridade

A poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979) estava em sua casa em Ouro Preto, em 1970, quando recebeu, por telefone, a notícia de que tinha levado o National Book Award, um dos principais prêmios literários dos EUA. Como ela odiava o culto à celebridade, a novidade tinha todo o potencial para passar em branco naquele lugar em que até o telefone era raridade, não fosse uma foto na revista "O Cruzeiro" na ocasião.
Por aqueles dias, Bishop foi a uma lanchonete que costumava frequentar na cidade história, onde viveu de 1965 a 1974, e, ao vê-la, o dono fez um inédito pedido de autógrafo. Bishop recusou, como sempre fazia quando alguém a abordava com deslumbramentos, e o climão iminente o homem amainou: "Tá. Então vou apresentar à senhora a minha patroa, que também já ganhou um prêmio, de melhor salgadinho de Teresópolis".
Quem ouviu a história da própria poeta e a reproduziu, na última mesa do primeiro dia do Fórum das Letras de Ouro Preto, foi o artista plástico José Alberto Nemer, cuja irmã, Linda, é hoje dona da casa onde Bishop viveu. Sem noção de quem seria aquela senhora décadas mais velha, e justamente por desconhecerem a poesia dela, os dois conquistaram sua amizade. Recordações de Nemer já embasaram reportagem na revista "piauí", e boa parte delas foi relembrada na mesa.
Por não conhecer a aversão de Bishop à celebridade, o poeta Lloyd Schwartz, atual coeditor das obras completas dela nos EUA, quase perdeu a chance de virar amigo. Na mesa, ele contou que ficou tão deslumbrado ao vê-la numa leitura em Harvard, em 1970, que na saída a abordou e disse que amava seus livros e era seu maior admirador e estava feliz e todo aquele papinho que causava urticária, ao que ela respondeu, antes de virar as costas: "Grata". A amizade entre os dois só deslancharia três anos depois, quando uma sequência de coincidências fez dele uma espécie de portador quando ela ficou hospitalizada.
Entre ontem e hoje, houve algumas mesas em homenagem à poeta. A que parecia mais interessante, com Paulo Henriques Britto, tradutor dos poemas de Bishop, foi anterior à minha chegada a Ouro Preto. A de ontem à noite, divertida, focava na personagem, mas, afora o fato de a personagem ser ela própria, ninguém poderia dizer que Bishop reclamaria do formato. Foi falando da vida dos outros (pelas costas, é claro), e não da poesia dela, que Schwartz, segundo diz, ganhou seu afeto.
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A repórter viajou a convite da organização do evento
Escrito por Raquel Cozer às 17h35
Fórum das Letras: a sombra de Clarice

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A repórter viajou a convite da organização do evento
Escrito por Raquel Cozer às 01h11
Memórias do Alzheimer

Por muito tempo, tive um orgulho, assim, incomensurável de uma reportagem que fiz sobre mal de Alzheimer para o "Agora", em 2003 ou 2004. Era uma página inteira sobre a doença em si, sem nada muito novidadoso. A coisa foi que, no dia seguinte à publicação, minha editora comentou que o Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), então com 90 e poucos anos, tinha ligado na redação para elogiar. Parece que ele fazia isso com frequência, afinal era o jornal dele, mas comigo foi a única vez, de modo que o texto virou meu xodó irrestrito. Meu Pulitzer pessoal.
Anos depois, ao tentar montar um portfólio (no meio tempo, uma faxineira jogou fora todo o meu arquivo de reportagens do "Agora", mas isso é uma outra história), subi no arquivo da Folha atrás daquele texto, que não estava disponível na internet. Ao relê-lo, entendi o que não tinha entendido: o elogio era de alguém que sabia reconhecer qualidade num texto obviamente escrito por um iniciante. Com personagens interessantes (como são todos os envolvidos com a doença), razoavelmente bem estruturado e piegas, piegas de dar dó.
De uns tempos para cá, por motivos familiares, passei a me interessar pelo tema. Tenho lido muita coisa na internet e separado artigos, que ficam na mesa de cabeceira, e não no armário de bagunças (onde larguei a xerox da reportagem, que com sorte não vou encontrar nunca mais). Sabendo disso, ao ver a "serrote #9", meu editor avisou sobre um ensaio sobre Alzheimer, e fui direto a ele quando a revista chegou.
São fragmentos de texto, situações que a escritora argentina Sylvia Molloy (foto) captura das atuais vivências com sua ex-companheira, com quem hoje mantém uma relação na qual "mal restam palavras".
Textos curtos e densos assim:
LÓGICA
Age impecavelmente por dedução, com o que comprovo mais uma vez que, para pensar racionalmente, a razão não é necessária. Como sempre, me pergunta por E., embora a esta altura o nome tenha se esvaziado para ela, quando a vê me diz do mesmo jeito, quando me despeço, lembranças para E., como se não estivesse ali. Respondo que E. está bem cansada, hoje teve um dia longo no juizado. Claro, ela responde, vocês andam mesmo complicadas com esse julgamento terrível. Não, apresso-me a contradizê-la, não, como que para afungentar a possibilidade de que suas palavras tenham poder convocatório: não, imagine, ela apenas teve um dia longo no juizado porque trabalha lá, é advogada. Parece que a decepciono. Creio que sua explicação, em certo sentido perfeitamente lógica (juizado, daí julgamento), lhe agradava mais. Era certamente mais dramática.
LIBERDADE NARRATIVA
Não restam testemunhas de uma parte da minha vida, aquela que sua memória levou consigo. Essa perda, que poderia me angustiar, curiosamente me liberta: não há ninguém capaz de me corrigir se eu decidir inventar. Em sua presença, conto alguma história minha a L., que sabe pouco do seu passado e nada do meu, e para melhorar o relato invento algum detalhe, vários detalhes. L. ri, e ela também festeja, nenhuma das duas duvida da veracidade do que digo, mesmo que não tenha acontecido. Talvez eu esteja inventando isso que escrevo. Afinal, ninguém poderia me desmentir.
***
Ensaiei aqui uns parágrafos finais, mas quando vi estava sendo piegas de novo. Desculpem. Melhor que fiquem com quem sabe escapar do sentimentalismo: hoje, no IMS-Rio, e dia 21, no IMS-SP, no lançamento da revista, a atriz Regina Braga fará a leitura do texto, aberta ao público.
Sylvia Molloy teve publicados por aqui "A Escrita Autobiográfica na América Hispânica" (Argos, 2004) e "Em Breve Cárcere" (Iluminuras, 1995).
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Escrito por Raquel Cozer às 17h00
Notas de rodapé do Portugal Telecom
Escrito por Raquel Cozer às 08h19
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Um pouco da poesia que acaba de chegar às livrarias

Se o sol nela
batesse
em cheio
por exemplo
numa mesa posta
no jardim
imediatamente se formaria
um pequeno lago de luz
CÔMODA
E dela
o que restou
senão
sobre a cômoda
um par de brincos
que talvez não sejam dela?
Eu, que não sou uma grande leitora de poesia, talvez porque bons versos sempre me deixem com a sensação de que perdi algo (e assumir fraquezas que é bom ninguém quer), eu me peguei carente ao terminar "Da Arte das Armadilhas", de Ana Martins Marques (foto). Carente, mesmo: lamentei não ter por perto o primeiro dela, "A Vida Submarina" (2009), que só não chamou mais atenção da crítica por ter saído por editora sem distribuição nacional, a mineira Scriptum.
Não sendo uma seguidora tão fiel da produção poética, aprendi a colecionar recomendações. Se duas, três pessoas cuja opinião respeito falam do mesmo livro, vai para a lista de prioridades. Isso aconteceu nas últimas semanas com Ana Martins Marques e com a polonesa Wislawa Szymborska, da qual falei dias atrás, e foram casos que me fizeram voltar a acreditar no método de seleção.
Continuo pouco à vontade para a leitura crítica de versos, mas, se ajuda, posso dizer que são livros que eu daria de presente. Do título novo de Ana é possível ler, além dos versos acima, um pouco aqui. E sobre a poeta dá para entender um pouco mais lendo a entrevista que ela concedeu a Francesca Angiolillo, editora-adjunta da Ilustrada.
***

Ilustração de Fábio Zimbres para "A Lua no Cinema e Outros Poemas"
Poesia não vende bem, então é interessante ver editoras de alcance nacional investindo nela. Tirando a leitura romântica da coisa, uma grande casa que se queira relevante precisa de livros lucrativos e outros que deem prestígio, e é na segunda parte que entra a poesia.
No início da década, a Cosac Naify fechou para isso parceria com a 7Letras, editora mais conhecida por dar espaço a novos autores que por bater recordes de vendas. Da parceria saíram bons títulos da nova poesia nacional, como "Rilke Shake" (2007), de Angélica Freitas (que teve poemas inéditos há pouco na "Ilustríssima", para assinantes).
O gênero anda frequente também na Companhia das Letras. Além dos citados acima, saiu por agora "A Lua no Cinema e Outros Poemas", organizado por Eucanaã Ferraz, com poemas sobre a lua por Caetano, Gullar, José Paulo Paes e outros. É para adolescentes, uma coisa de uma simplicidade que me encheu de alegria: fez lembrar a série "Para Gostar de Ler", da Ática, que me apresentou nos anos 80 a Vinicius, Quintana e Drummond e que hoje, diz o Google, está fora de catálogo.
***
Escrevi para três boas editoras pequenas que publicam poesia, a 7Letras, a 34 e a Iluminuras, para saber as novidades. Só a 34 respondeu a tempo, informando não ter nada do gênero previsto até 2011 acabar. Os últimos meses do ano, assim como aqueles que antecedem o Carnaval, nunca são editorialmente palpitantes.
Da Iluminuras, levei ontem para ler no Ibirapuera o recente "Junco", de Nuno Ramos, que, na falta de interpretação melhor, alterna fotos e versos protagonizados por cães largados no asfalto e cadáveres de árvores sobre a areia. Nuno é também artista plástico e tem outros livros, inclusive o premiado (Portugal Telecom 2009) e difícil "Ó".
Achei bonito saber que, nos intervalos dos outros trabalhos, ele passou 14 anos tentando arrematar as pontas de "Junco". A surpresa para mim foi um poeminha de nada mais que dez versos curtos, que, conforme denunciam as datas ao pé do texto, exigiu nada menos que quatro retornos do poeta desde maio de 1997: fevereiro de 2006, setembro de 2009, abril de 2010 e setembro de 2010. Tentei especular a evolução nas entrelinhas, mas, é claro, fracassei. É esse:
Estrutura triturada.
Sal misturado à lava
do mar, minério mole.
Sol pegado à pele
calva do céu. Ruga
de um urubu na espuma.
A chuva
sua
moluscos
na cratera dos sargaços.

Um cadáver de árvore na lente de Nuno Ramos
***
Para continuar em artistas plásticos, sai nesta semana pela Cosac um livro de poemas com assinatura de Tunga. Não dos versos, que são da namorada dele, Esther Faingold. Tunga assina dez ilustrações, que acompanham dez poemas dela, num volume lançado só com 300 cópias pela módica quantia de R$ 3.000 a unidade.
"Ethers" é uma espécie de encontro poético erótico. Parece que os poemas dela, impressos em tinta de papel carbono, podem ser decalcados sobre as páginas ilustradas por ele, em "um exercício sensual de contato, fricção e interação espontânea". Hm.
Abaixo, os primeiros versos e a imagem na qual podem ser decalcados. Se tiver condições finaceiras de realizar essa experiência sensorial, não deixe de me contar como foi. Ou talvez seja melhor deixar.
Em veias tenho teu nome
Não capturo
És o meu bolso, minha rocha
Guardo-te grão
Aguardo-te garrafa
Cresces no sopro da água
Crias raízes
Te firmas no ar
Tens garras suspensas, extensas
Tens o meu nome
Não capturo

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Escrito por Raquel Cozer às 13h13
