A Biblioteca de Raquel

Raquel Cozer

 

Uma igreja literária em busca de rebanho

Fui a São Miguel Paulista, no extremo leste da capital, uma vez só, em 2002, talvez, quando cobria polícia no "Agora". Isso até a tarde de hoje, quando voltei para mediar uma mesa com o ficcionista Luiz Ruffato e o poeta Eucanaã Ferraz numa tenda montada numa pracinha. Sobre o distrito, eu lembrava só que era looonge, então deixei para pensar no táxi questões pertinentes ao tema: "Literatura brasileira contemporânea, diálogos com uma nova geração de leitores".

Não tinha entendido que a nova geração de leitores não era o tema, e sim o público, e que os diálogos eu iria ter de improvisar, já que minhas pertinentes questões sobre formação de leitores tinham todo o potencial para levar a nova geração deles aos bocejos. Então achei relevante abrir a conversa perguntando ao Ruffato como passou de pipoqueiro (santo Google) em Cataguases a escritor publicado em vários países.

Dali a coisa rendeu. Haja talento de escritores hoje em dia para falar em público, não canso de me abismar. Teve até leitura emocionada do Eucanaã do poema "Conversa com a Pedra", de Wislawa Szymborska (ó a colher de chá: lê-se "vissuava xemborsca"), polonesa nobelizada que eu não conhecia, mas que acaba de ganhar edição no Brasil e anda emocionando todo mundo (outra colher de chá: vários poemas aqui).

No fim, virou uma conversa com as meninas. Os meninos, confirmando esse clássico da leitura mundial, não estavam lá muito interessados (depois soube que teve um grupo no fundo que rasgou o programa do festival para montar algum jogo capaz de entretê-los naquelas intermináveis duas horas). Três meninas disseram ter ambições literárias; uma inclusive trocou o sonho de ser pastora pelo de virar contista.

Foi aí que o Ruffato contou da Igreja do Livro Transformador, ideia dele e do Rogério Pereira, do "Rascunho", para o qual buscam rebanho disposto a postar vídeos com depoimentos no YouTube. Ele explica abaixo:

 

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A coisa é recente, então por enquanto tem só o depoimento do Ruffato. Eu, que nunca me entendi com fotos ou vídeos, vou ficar devendo essa.

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Escrito por Raquel Cozer às 20h39

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A literatura e a Lei Rouanet

Quando primeiro ouvi falar do projeto Amores Expressos, no início de 2007, fui da turma do contra.

Eu era redatora da Ilustrada, ainda nem cobria literatura, mas acompanhei o assunto antes mesmo de sair aquela famosa reportagem do Cadão Volpato sob o título "Bonde das letras". Ninguém tinha pedido minha opinião, mas eu já tinha decidido que não gostava da ideia.

Depois repensei. À primeira vista assustava mais - escritores viajando às custas do governo, mas que coisa. O que me fez tender para o "vocês tratem de viajar que eu pago a minha parte" foi a celeuma em torno da seleção de nomes. Essa parte era fácil responder, já que ninguém aqui, muito menos o governo, ainda bem, escolhe que nomes vão entrar num filme ou festival de música que capta recursos via isenção fiscal.

O resto da história quem acompanha essas discussões infinitas do meio literário na internet sabe: a coisa deu tanto o que falar que a produtora que idealizou a coisa pagou as viagens sem a ajuda do governo.

***

Neste domingo, escrevi para a "Ilustríssima" uma reportagem sobre o Redescobrindo o Brasil, projeto de Adriana Lisboa e Luiz Ruffato que coloca escritores para viajar pelo país como inspiração para romances. Ao contrário do Amores Expressos, o Redescobrindo o Brasil recebeu o aval do governo para captar recursos via Lei Rouanet. Se não fui mais incisiva, como um leitor questionou, foi porque não há nada ilegal em discussão. A intenção é abrir o debate, não direcioná-lo.

Não tenho opinião formada ainda. Não sou contra a captação de recursos via Lei Rouanet, acho só que a coisa precisa de ajustes. Acho bom que existam projetos literários num cenário dominado por projetos musicais e cinematográficos, que costumam inclusive ser mais caros. 

Uma parte sujeita a discussão seria a que diz respeito ao financiamento da inspiração, antes mesmo da execução. E quem é que vai acusar alguém que não entregar o resultado por bloqueio criativo? 

Mas daí você pega um livro como "Mongólia", do Bernardo Carvalho, que teve como origem uma bolsa de uma certa Fundação Oriente, e sabe que ele não existiria não fosse o dinheiro que financiou a inspiração do autor. Ou o tanto de bolsas para escritores residentes em instituições de países como os EUA e a Alemanha, inclusive para autores brasileiros.

E há a questão mercadológica. Os acertos com produtoras para publicação de romances faz pensar no alcance da literatura. Se romances dependem de financiamento público para se pagarem, assim como tantos já dependem de compras do governo, será que estão atingindo o leitor?

***

Recebi mensagens via Facebook, Twitter e email. Reproduzo algumas abaixo, e fica a caixa de comentários para quem mais quiser opinar.

"Por que essa gente não se beneficia do crowdfunding? Assim os investimentos e as contrapartidas, os autores dos projetos e seus colaboradores têm clareza dos custos envolvidos, das contrapartidas, do tempo para executá-los, não é não? Essa gente toda tem que conhecer os portais de orçamento colaborativo que já existem no Brasil; um deles é o Sibite." Giselle Zamboni

"Acho que uma obra literária é mercadoria (embora não precisasse sê-lo, preferiria até que não fosse, mas se o é, o é), mas também acho que o processo de criação tem que estar totalmente dissociado desta ideia. Se não, nunca teremos arte com personalidade, mas scripts, receitas de bolo ..." Danielle Antunes Ribeiro

"A literatura, como o cinema, a música (o Álvaro Pereira Junior tocou nesse assunto referindo-se a certa cena musical de SP) tem vivido assim, na espreita de editais, cada vez menos interessada em criar público, inserção e respeitabilidade." Gustavo (não sei se posso publicar o sobrenome)

 

"O texto faz pensar sobre políticas para compra de livros (muitas) e de fomento à leitura (nulas). Também faz pensar sobre o escritor que precisa arrumar o que escrever porque o cheque já caiu na conta..." Pedro Borges

 

"Descontados os ressentidos, o que ficou desse projeto anterior, e o que ficará desse? Blog da Bethânia à parte, é disso que a literatura brasileira precisa? Nunca pensei que fosse ocupar esse lugar de pseudo-vate, mas se tem uma coisa que a literatura brasileira precisa é de textos melhores. Faz tempo que a bola da vez são essas pirotecnias aí, mas a literatura continua pra lá de pigméia, e cada vez mais servil." Antonio Marcos Pereira 

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Escrito por Raquel Cozer às 15h24

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PERFIL

abibliotecaderaquelRaquel Cozer, 33, é jornalista especializada na cobertura de livros e repórter da "Ilustríssima".


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