Quadrinhos e bugalhos

Onde estavam os olhos dela?, pergunta Margaret Atwood
"Aprendi a ler cedo para poder ler tiras nos jornais, porque ninguém se daria ao trabalho de lê-las para mim. As páginas de quadrinhos do jornal eram chamadas de páginas de humor, embora boa parte das tiras não fossem engraçadas, e sim dramáticas, como 'Terry and the Pirates', que mostravam uma mulher fatal chamada The Dragon Lady, ou surreais, como 'Little Orphan Annie' -onde estavam os olhos dela? As páginas de humor levantavam muitas questões na minha jovem mente, algumas das quais permanecem sem resposta."
O depoimento faz parte do livro "Em Outras Palavras", da canadense Margaret Atwood, escritora tão prolífica, inclusive no Twitter, que às vezes acho que tem uma equipe de colaboradores, no estilo Alexandre Dumas, para dar conta da onipresença. O livro recém-lançado teve um trecho publicado hoje no "National Post", sob o título "Como um amor pelos quadrinhos iniciou um amor pela leitura".
Falar em quadrinhos como porta de entrada para a literatura é sempre delicado; você consegue num só argumento irritar quem acredita que comparar HQ com literatura é confundir alhos com bugalhos (desculpe o aparte, mas você já viu um bugalho?), já que quadrinhos são uma arte em si, e também quem acha que HQs são coisa de quem não lê a sério. Da experiência que me cabe, posso dizer apenas que eu já tinha o costume de ler romances adultos quando meu pai despejou no lixo o gavetão em que meus irmãos e eu guardávamos gibis depenados por releituras. Ou seja, não foi como se tivesse me resgatado das garras de quadrinistas do mal em favor dos bons romancistas. E haja análise.
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"Bando de Dois", uma das sete HQs que vão para bibliotecas escolares em 2012
Quadrinhos seguem com o estigma de primos enjeitados das artes, mas têm ganhado status editorial. Em 2006, passaram a ser aceitos nas seleções do PNBE, programa federal de compra livros para distribuição em bibliotecas escolares. Naquele ano, foram escolhidos 14 títulos; no ano passado, chegaram a 26. E daí houve a queda: na seleção feita este ano, passaram só sete HQs, de um total de 250 títulos a serem comprados. O Télio Navega, do blog Gibizada, questionou o MEC, que argumentou: editoras inscreveram menos obras, até porque publicam menos quadrinhos direcionados aos ciclos escolares previstos pelo atual edital, de alunos mais novos.
Semanas atrás, enquanto defensores (a gente sabe que fala de um primo pobre quando ele precisa de defensores) ainda lamentavam a queda na seleção de quadrinhos pelo PNBE, a "Veja" saiu com uma reportagem que colocava HQs entre bugalhos para criticar o Enem. A chamada: "Educação: sai a literatura, entram os quadrinhos". Não sei como são elaboradas as questões do Enem, nunca vi uma prova deles mais extraviada na minha frente, mas a postura da revista contra "uma supervalorização absurda" dos quadrinhos gerou reações indignadas, incluindo uma boa carta resposta do pesquisador do núcleo de quadrinhos da USP Paulo Ramos, da qual reproduzo o argumento abaixo:
"A respeito da leitura dos dados, a revista diz que 'a literatura está virtualmente ausente do Enem' e que o importante para o jovem que presta a prova "é saber interpretar uma história em quadrinhos". Há, nisso, uma interpretação errônea do estudo, cujas conclusões são reproduzidas pela própria publicação. Tabela apresentada na reportagem dá conta de que o Enem pautou seus enunciados em textos de poesia (58 questões), crônica (21), romance (20), conto (5) e drama (1). O total, portanto, chega a 105 questões sobre gêneros literários, número maior que os demais itens, histórias em quadrinhos (32), crítica (21) e canção (14)."
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"Riot", obra de Peter Kuper, que estará no Rio Comicon
HQs ainda não vendem lá essas coisas, mas até aí nem literatura brasileira contemporânea vende. O fato é que os festivais de quadrinhos pipocaram como gremlins de 2010 para 2011, algo parecido com o que se viu com feiras literárias na última década. Em junho, a Diana Passy, que cuida de mídias sociais na Companhia das Letras, me mandou uma lista informal que fez com festivais até dezembro. Eram dez, sendo quatro deles estreantes. No fim, teve até mais eventos inéditos -dias atrás, houve um em Salvador, do qual não se tinha notícia em junho.
Os dois principais acontecem em breve: o Rio Comicon, cuja segunda edição rola no próximo fim de semana, com Liniers e Peter Kuper entre os convidados, e o tradicional FIQ BH, de 9 a 13 de novembro. Se não reina mais quase sozinho, como em edições anteriores, o FIQ por enquanto só encontra concorrente em formato e importância no Rio Comicon, mesmo. Ainda falta saber quais se firmarão no formato acadêmico. De três eventos do tipo entre junho e agosto, dois estrearam este ano, o pernambucano Encontro Nacional de Estudos sobre Quadrinhos e as Jornadas Internacionais de Quadrinhos, na USP.
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Escrito por Raquel Cozer às 09h59
Três perguntas para John Banville

O sr. diz que “Amphitryon”, de Heinrich von Kleist, é uma das maiores obras-primas da literatura europeia. O que leva um escritor a ambicionar uma releitura de algo que considera assim tão bem resolvido?
Todo artista se alimenta de outros artistas. Livros são feitos de livros. Eu tive Kleist em mente por toda a minha vida como escritor, ele é o maior gênio da literatura europeia, e me assusta que não seja tão conhecido, ao menos na língua inglesa. Depois de fazer uma versão de sua “Amphitryon” para o palco, comecei a pensar em escrever um romance que fosse baseado de forma muito próxima na peça. Não seria uma comparação. Eu quis fazer neste romance algo como James Joyce fez com a Odisseia, de Homero, em “Ulisses”. Acontece que “Os Infinitos” se tornou mais e mais autônomo, ganhou seu próprio tipo de narrativa, seu próprio tipo de mundo. Mas “Amphitryon” continua lá, como uma espécie de esqueleto. Não mais que um esqueleto –o livro se mantém sozinho. Se você nunca leu “Amphitryon”, ainda pode ler o livro sem que perca muita coisa.
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Como em “O Mar”, “Os Infinitos” tem a morte como elemento central para a narrativa. Por que o tema interessa ao sr.?
O filósofo Spinoza diz que o homem esperto só pensa na morte, mas toda as suas meditações são sobre a vida. A morte é o que nos dá o senso de estarmos vivos. Rex, o cão de "Os Infinitos", passa o tempo todo olhando para os seres humanos e tentando entender qual o problema com eles, e o problema é que eles sabem que vão morrer. Ele não tem o senso de mortalidade, mas os seres humanos têm. E essa é nossa tragédia e nossa glória.
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O sr. também escreve críticas de livros para suplementos de cultura. Como é a escolha de títulos?
Antes de tudo, acho importante ressaltar que o que faço não é crítica. Eu apresento novos livros aos leitores, faço muito essa distinção. O trabalho do crítico é situar a obra no cânone, já o resenhista dá sugestões ao leitor em potencial. Dito isto, eu costumava resenhar muita ficção, mas hoje não, porque ela me interessa menos. Homens velhos não leem muita ficção. Isso é estranho, mas é um fenômeno bem conhecido. Hoje acho até que escrevo mais ficção do que leio. Ainda acredito na ficção, é uma aventura maravilhosa, vários dos meus autores preferidos são de ficção. Mas, quando chega a certa idade, você se dá conta de que há livros que ou você lê agora, ou nunca mais poderá ler, então pego livros que não me atraíam quando eu era jovem e achava que tinha todo o tempo do mundo. Hoje leio muita história, filosofia, poesia, e também cartas, biografias. Acabei descobrindo que autores de não ficção podem ser estilistas maravilhosos, com livros de história ou biografias que valem muito mais pela linguagem do que pelo que você pode aprender com eles.
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Escrito por Raquel Cozer às 18h41
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Um sinal de vida (digo, de internet)

Cachoeira, essa linda cidade baiana que o sinal da Vivo mal conhece, na segunda-feira pela manhã, quando a Flica ainda não tinha começado
Tentei fazer ontem um post sobre o tema da capa da "Ilustríssima", que foi um ensaio do Paulo Roberto Pires sobre o mercado editorial, abordando "O Dinheiro e as Palavras, de André Schiffrin, e "How a Book Is Born", com os bastidores do lançamento de um candidato a best-seller (junto, saiu uma entrevista minha com o Schiffrin). Ao longo da semana, conversei com editores brasileiros para contextualizar no Brasil o cenário descrito no ensaio, e a ideia era fazer aqui a comparação.
Mas esqueci a regra número um do guia do mochileiro das galáxias brasileiras: se estiver longe de território conhecido, escreva tudo no Word e, quando a internet der sinal de vida, publique. Em outras palavras, perdi todo o raciocínio elaborado para o post.
É que estou desde ontem em Cachoeira para participar da Flica, o primeiro festival literário na Bahia - divido, no começo da noite, com Fernando Morais e Miguel Sanches Neto, a mesa de abertura, sobre o tema "Literatura Brasileira, Sucesso de Público e de Crítica?". A mediação será de Jefferson Beltrão, que eles chamam de William Bonner local, embora esteja na aparência mais para um Pedro Bial local (acho que metade do auditório estará lá para vê-lo). Cachoeira é uma linda cidade, só não é muito afeita a sinais de internet.
Vou tomar coragem para recomeçar o post (este aqui, mais simples, eu já fiz do jeito certo) e publico se o sinal não me faltar de novo.
Escrito por Raquel Cozer às 11h32
