A Biblioteca de Raquel

Raquel Cozer

 

Festival do Rio, versão literária - parte 2

Não tive coragem de me enfiar num cinema com esse dia que fez no Rio, mas, à tarde, vendo o tempo passar no jardim do IMS, gastei uma boa hora entretida com o guia de programação. Costuma mesmo ter muito filme em comum com a Mostra de São Paulo ou só perco tempo em pesquisar? Porque não sei se um domingão no Rio antes de voltar para a chuva será o melhor momento para optar pelo cinema...

De todo modo, deu para identificar mais uns filmes que parecem interessantes baseados em livros, e vamos ver se passam em SP no fim do mês também. Segue então um adendo ao post de ontem

(Um update, com muito atraso, porque eu estava até ontem entre Rio e Bahia, com pouco acesso à internet: no final de semana, a organização da Mostra de SP anunciou que só exibirá filmes estrangeiros que não tenham passado em outros festivais brasileiros. Logo, esta lista vale só para o Rio - e faço outra para São Paulo)

"Bonsai", de Cristián Jiménez. Pedro Butcher tinha indicado, mas eu não sabia que tinha base em livro. O romance de Alejandro Zambra é inédito por aqui, mas foi bem elogiado em países de língua espanhola e inglesa. O filme entrou na mostra Um Certo Olhar em Cannes neste ano. Dias 14 (sex.), 15 (sáb.) e 16 (dom.).

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"O Caçador", de Daniel Nettheim. A autora do livro homônimo, Julia Leigh, chamou a atenção em Cannes neste ano por outro filme, que ela roteirizou e dirigiu, chamado "Sleeping Beauty", sobre uma prostituta de luxo. O que passa aqui é um suspense envolvendo biotecnologia. Amanhã (dom.) e dias 10 (seg.) e 13 (qui.)

"Dormir ao Sol", de Alejandro Chomski. Adaptado do romance homônimo de Adolfo Bioy Casares, inédito por aqui - um filme interessante, segundo Marcelo Miranda, repórter de cinema do jornal mineiro "O Tempo". Dias 11 (ter.) e 16 (dom.).

"Vidas Cruzadas", de Tate Taylor. Adaptado do romance "A Resposta", de Kathryn Stockett, que virou fenômeno de público lá fora ao tratar de questões sociais na Mississippi dos anos 60 e aqui saiu pela Bertrand Brasil. Com Viola Davis. Hoje e amanhã.

Desse eu não conseguir incorporar o código do vídeo, só linkar o endereço do trailer, mas é curioso:

"As Nove Musas", de John Akomfrah, analisa a imigração para a Inglaterra pós-Segunda Guerra, de 1949 a 1970, numa analogia com o ponto de partida de "A Odisseia", de Homero. Há ainda citação de trechos de obras de Dante, Emily Dickinson, Samuel Becket e James Joyce. Dias 13 (qui.), 15 (sáb.) e 17 (seg.).

E vi ainda esses dois baseados em infantis e não recomendados para crianças (18 anos de idade mínima para o primeiro, 12 para o segundo). Se alguém assistir, me conte:

"Chapeuzinho Vermelho do Inferno", do cubano Jorge Molina, selecionado para o Festival de Havana do ano passado. Dias 10 (seg.), 14 (sex.) e 18 (ter.).

"O Pequeno Polegar", da francesa Marina de Van, selecionado para o Festival de Veneza deste ano. Dias 11 (ter.), 15 (sáb.) 19 (qua.) e 20 (qui.)

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Escrito por Raquel Cozer às 20h32

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Festival do Rio, versão literária

Falei há pouco sobre a versão da Andrea Arnold para "O Morro dos Ventos Uivantes" sem saber que estava selecionado para o Festival do Rio, que começou ontem. Passa nos dias 17 (seg.) e 18 (ter.), em cinco horários (dá para baixar toda a programação aqui).

A notícia chegou por email, numa série de indicações do Pedro Butcher, crítico da Folha e editor do Filme B. Como estarei no Rio por esses dias, aproveitei para perguntar pra Audrey Furlaneto, que está morando por lá, se estava sabendo de outros filmes baseados em livros. E ela olhou verbete por verbete na programação (<3).

Seguem então opções cujos trailers passaram por rigorosos (cof) critérios cinematográficos. É claro que não é uma seleção daquelas como bons cinéfilos gostam, só com filmes sem previsão de estreia no circuito (sou uma mera cinéfila sem carteirinha).

"Memórias de Minhas Putas Tristes", de Henning Carlsen. Baseado no livro homônimo de Gabriel García Márquez, que saiu aqui pela Record. Dias 13 (qui.) e 16 (dom.).

"Naomi", de Eitan Zur. Baseado no romance "Love Burns", da israelense Edna Mazya, e selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Veneza 2010. Dias 13 (qui.), 16 (dom.) e 17 (seg.).

"A Pele que Habito", de Pedro Almodovar. Baseado no romance francês "Tarântula", de Thierry Jonquet, que sai em breve pela Record, e selecionado para a competição oficial do Festival de Cannes 2011. Dias 9 (dom.) e 10 (seg.).

"O Pior dos Pecados", de Rowan Joffe. Baseado no romance "O Condenado", de Graham Greene, lançado pela Globo, e selecionado para o Festival de Toronto 2010. Dias 9 (dom.) e 10 (seg.).

Os próximos vão só com link, porque, sorry, se eu incorporar todos os vídeos, a página nem carrega mais...

"Bunny Drop", de Sabu. Baseado no mangá "Usagi Drop", de Unita Yumi. Dias 9 (dom.), 12 (qua.) e 14 (sex.).

 

Ainda passam outros que já citei no blog:

"One Day", de David Nicholls, nos dias 8 (a.k.a. amanhã), 9 (dom.) e 11 (ter.).

"We Need to Talk about Kevin", de Lionel Shriver, nos dias 13 (qui.), 15 (sáb.) e 17 (seg.).

Os dois são baseados em livros publicados pela Intrínseca e devem chegar logo ao circuito comercial. 

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Escrito por Raquel Cozer às 18h01

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O manifesto sérvio no Nobel

Alguns minutos antes de a Academia Sueca anunciar Tomas Tranströmer como o vencedor do Nobel de Literatura, agências internacionais repercutiram uma informação que aparecia na página do Nobel: o vencedor de 2011 era o sérvio Dobrica Cosic. O curioso era que, ao menos meia hora antes do anúncio, a casa de apostas Ladbrokes dava Tranströmer como favorito -e a grande coisa da Ladbrokes é que o resultado sempre vaza por lá com algumas horas de antecedência. 
 
Quando saiu a notícia oficial, às 8h de hoje no Brasil, ela confirmava o Ladbrokes e desmentia a página do Nobel.
 
O caso é que a página "oficial", nobelprizeliterature.org, era falsa. Era idêntica à página correspondente do Nobel e estava linkada a ele. Horas depois, a página fake mudou de cara e mostrou o que era: um manifesto.
 

"O propósito da nossa atividade é chamar a atenção para a perigosa influência pública na Sérvia do escritor Dobrica Cosic, que foi, mais uma vez, anunciado como um dos sérios candidatos ao Prêmio Nobel de Literatura.
 
Dobrica Cosic, escritor e figura política, ativo há décadas, sempre próximo do poder e daqueles que o exercem, do Partido Comunista da antiga Iugoslávia, inspirador do manifesto do nacionalismo sérvio, ex-presidente da Iugoslávia nos temos de guerra de Milosevic, à presente aliança com os mais perigosos e reacionários círculos pseudo-democráticos sérvios na nova era.
 
Registramos o domínio deste site obviamente falso em 5 de outubro de 2011 como uma lembrança simbólica daquele dia, 11 anos atrás, quando a Sérvia perdeu a oportunidade histórica de criar um mundo diferente e melhor. Mais uma vez, hoje, a Sérvia se volta para a guerra e o terror dos anos 90, violência contra diversidade, conservadorismo nacionalista e ortodoxia desonesta. Acreditamos que a atividade política de Dobrica Cosic ainda está profundamente entrelaçada com esse perigoso sistema de valores, que não cansa de nos ameaçar.
 
As terríveis consequências de décadas da atividade política, literária e pública do sr. Cosic são sentidas até hoje, por seu país e por toda a região.
 
Dobrica Cosic não é o ganhador do Prêmio Nobel, embora o público sérvio, e ele mesmo, tenham acreditado que ele é por 15 minutos.
 
Encontramos algum consolo neste fato."
***
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Quem assina é um grupo sem fins lucrativos de web ativistas.

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Escrito por Raquel Cozer às 16h15

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O que se pode concluir das apostas para o Nobel

Esse é o Tomas Tranströmer, em rara aparição na mídia brasileira 

Comecei a fazer um post das minhas impressões sobre o Nobel e bateu a sensação de reprise. Fui nos arquivos ver o que publiquei ano passado:

 

"Dias atrás, li um tweet sobre o nome então mais cotado para o Nobel de Literatura deste ano, o poeta sueco Tomas Transtromer. Nunca tinha ouvido falar na peça, então antes de tudo fiz busca básica nos sites da Folha, do Globo e do Estadão para saber o que tiveram os principais cadernos literários a dizer sobre ele. Para constatar que pelo menos desde 1996 o nome dele só saiu na grande imprensa nacional quando apareceu como candidato provável ao Nobel nas casas de apostas.

O fato de ser pouco conhecido por aqui não tira o mérito dele, dadas as nossas lacunas editoriais, mas a recorrência do nome no topo da lista há mais de uma década prova que essas cotações com antecedência podem ser quase tão certeiras quanto chutes na Mega Sena.

O que aconteceu, nos últimos anos, foi de informações privilegiadas vazarem. Daí que a vencedora de 2009, a alemã de origem romena Herta Müller, escalou de forma vertiginosa do pé da lista para o primeiro lugar na véspera de ter o nome anunciado, mais ou menos como aconteceu em 2008 com o francês Jean-Marie Le Clézio.

De resto, apesar de toda a matemática especulativa que se faz acerca do Nobel (há quanto tempo um poeta não é agraciado, há quantos anos um asiático ou um latino-americano não é lembrado, qual nome seria politicamente interessante etc), ela praticamente nunca bate com os resultados da matemática diplomática feita pela Academia. 

O segundo e o terceiro lugares entre as apostas ficam com Cormac McCarthy e Haruki Murakami – a última americana a ganhar foi Toni Morrison, em 1993, e o último japonês, Kenzaburo Oe, no ano seguinte, o que teoricamente depõe a favor dos dois. No mais, o que se tem é uma lista com os suspeitos de sempre."

 

***

Não sei se há muito a acrescentar sobre as apostas de 2011. Tranströmer, hoje em terceiro lugar, está prestes a ganhar pelo menos novas referências nos jornais brasileiros. O poeta sírio Adônis aparece em primeiro, Bob Dylan em segundo - os dois também são habitués, e nem eu, com essa relação pouco sadia de admiração pelo Dylan, acho que ele merece o Nobel de Literatura ("Crônicas - Vol. 1" é lindo, mas acho que eu preferia reler três vezes seguidas o "Catatau" do Leminski que avançar mais que as poucas páginas que consegui enfrentar de "Tarântula"). Murakami está agora em quarto; McCarthy, em 12º; e eu, na mesma situação do ano passado: sem uma conclusão para o post.

(Se Dylan levar essa, leio "Tarântula". Que a Academia me proteja.)

***

Update às 11h de 5/10, menos de 24 horas antes do anúncio da premiação: neste momento, Bob Dylan está em primeiro lugar nas apostas da Ladbrokes para o Nobel.

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Escrito por Raquel Cozer às 20h41

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A literatura ilustrada por Tom Gauld

Já falei do Tom Gauld aqui, mas na época era lá, no outro endereço, já nem lembro qual deles, então falo de novo. Ele é o cartunista das páginas de livros do "Guardian" e tem umas sacadas que valem por mil resenhas. Esta acima ele fez para um megaespecial sobre livrarias independentes que o jornal publicou na sexta-feira.

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Escrito por Raquel Cozer às 15h05

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A ciência antes da autoajuda

"Em caso de nada para fazer, quebre o vidro e então varra os cacos."

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Muito antes de Lair Ribeiro fazer fortuna com livros de autoajuda sobre inteligência emocional, como "O Sucesso Não Ocorre por Acaso" (2002), o conceito foi tema de estudos científicos em Yale. Nos Estados Unidos, o psicólogo Peter Salovey, um dos criadores do termo, também viu seu conterrâneo Daniel Goleman tornar-se algo como uma referência graças a "Inteligêncial Emocional" (1995) e best-sellers congêneres.

Há alguns anos diretor acadêmico de Yale, Salovey até publicou alguns títulos sobre o tema, sem o mesmo apelo. Hoje divide os trabalhos na quarta melhor universidade do mundo (segundo avaliação da ONU) com apenas um dia por semana de pesquisas sobre inteligência emocional, assunto que já nem emociona tanto assim editores e livreiros.

Salovey sabe que ajudou a encher bolsos alheios (Lair Ribeiro ainda roda o mundo com palestras), mas não gosta de pensar que os best-sellers ajudaram a criar preconceito contra seu objeto de pesquisa. "Não diria preconceito, mas decerto causou confusão: muita coisa que não tinha nada a ver com emoção ou inteligência recebeu o rótulo de inteligência emocional. Como chamar de IE traços de personalidade como entusiasmo ou persistência", disse o psicólogo por telefone à Folha na última semana.

Nesta segunda, ele participa de encontro da Fundação Estudar para falar do tradicional modelo de ensino de artes liberais ministrado em Yale, que desde o início do século 19 valoriza um currículo focado em humanidades e ciências como forma de desenvolver o pensamento racional - um modelo que tem se expandido para a Europa. É mais ou menos assim: antes de optar por ensinos para uma carreira específica, o aluno estuda filosofia, matemática e outras disciplinas gerais para expandir o pensamento crítico, a capacidade de se comunicar e de trabalhar em equipe.

É possível dizer que o método de ensino de artes liberais de Yale estimula a inteligência emocional, embora seja anterior ao conceito?

Olha, não é focado nisso, mas com certeza inclui esse estímulo. Uma das maneiras como as pessoas aprendem a desenvolver habilidades ligadas à inteligência emocional, a lidar com emoções próprias e alheias, a usá-las como fonte de criatividade, uma maneira como aprendem isso é pelas artes. Ou lendo boa literatura. Você lê Dostoievski e aprende sobre lidar com emoções. As habilidades sobre as quais falamos no modelo de inteligência emocional não estão explícitas no currículo de artes liberais, mas fazem parte dele de forma geral. Estamos desenvolvendo currículos para ensinar exclusivamente habilidades emocionais, mas não ainda na universidade, só da escola elementar até o secundário.

Como seria essa influência pela literatura?

Uma das coisas que as pessoas aprendem quando leem ficção é a se imaginar como protagonista do romance. Imaginam viver aquela vida, encarar aqueles dilemas. Fazendo isso, você pode experimentar a mesma emoção e aprender a lidar com ela, mas de forma segura, já que aquilo não está acontecendo realmente. Mas é claro que isso vale para muitas outras formas de arte ou entretenimento, até para filmes de terror.

O conceito de inteligência emocional foi muito falado nos anos 90, mas quase não se ouve mais falar. O que avançou de lá para cá? Já existe uma forma de medir essa inteligência, algo como os testes de QI?

Escrevemos nosso primeiro artigo em 1990, e então Dan Goleman, jornalista com formação em psicologia, escreveu em 1995 um best-seller que tornou o conceito popular, vendeu 5 milhões de cópias e foi traduzido para 25 idiomas. Foi por isso que ouvimos falar tanto disso naqueles anos. O que acontece agora é mais uma pesquisa sobre como medir IE e como os resultados podem se projetar no trabalho, em casa, na escola, na vida social. Temos uma forma de medição chamada Mayor-Salovey-Caruso Emotional Intelligence Test (MSCEIT), que foi traduzida para o português. O teste não pergunta sobre você, ele mede suas habilidades. Mostra rosto e atitudes para você analisar a emoção, mostra pinturas para você identificar a emoção que o artista queria passar, oferece cenários para você selecionar a estratégia emocional mais efetiva. A ideia é medir a inteligência emocional por meio de habilidades que as pessoas possam aprender. Organizamos essas habilidades em quatro itens: como identificar, entender, lidar com e manifestar emoções.

Como são vistos no meio acadêmico os estudos sobre inteligência emocional? Os best-sellers de autoajuda geraram preconceito?

Não diria preconceito, mas decerto causou confusão: muita coisa que não tinha nada a ver com emoção ou inteligência recebeu o rótulo de inteligência emocional. Como chamar de IE traços de personalidade como entusiasmo ou persistência. No meio acadêmico, a maior controvérsia diz respeito ao uso da palavra inteligência, se seria o melhor termo. Os métodos de medição também confundem, porque uns consideram julgamentos seus sobre você mesmo e outros medem habilidades, de modo que, quando se confronta os resultados, eles não batem.

***

A ilustração não tem nada a ver com o post, mas é legal, vai. Ou talvez ela diga algo sobre a minha inteligência emocional. =(

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Escrito por Raquel Cozer às 17h16

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PERFIL

abibliotecaderaquelRaquel Cozer, 33, é jornalista especializada na cobertura de livros e repórter da "Ilustríssima".


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