A Biblioteca de Raquel

Raquel Cozer

 

Sobre as notícias do Jabuti

 

 

Depois que escrevi sobre as desclassificações de finalistas do Prêmio Jabuti, a Editora 34 me mandou, nesta semana, a edição de 1983 e a de 2010 de "Itinerário de uma Falsa Vanguarda", o livro de Antonio Arnoni Prado que saiu da lista por "desacordo com o regulamento". 

Para quem não acompanhou, uma breve contextualização: no dia 21, saíram os resultados da primeira fase do Jabuti. Questionei a curadoria sobre dois títulos que não se encaixavam nas regras. Dois dias depois, José Luiz Goldfarb, o curador, disse que o livro de Arnoni também estava sub judice, após dúvidas sobre seu ineditismo. Caíram os três.

Fazia sentido a dúvida sobre o livro de Arnoni: o título igual das edições de 1983 e 2010 confunde. Com os dois em mãos, a questão toma outra dimensão. O de 1983 saiu pela Brasiliense com 112 págs; o de 2010 tem 296 págs. O atual é o estudo completo de assunto abordado de forma breve na coleção "Primeiros Voos", voltada a leitores jovens. O de 1983 corresponde a parte do livro de 2010, mas só dois de nove capítulos têm o mesmo título, com textos diferentes.

Durante a semana, a 34 enviou ao Jabuti nota oficial sobre a desclassificação: “A Editora 34 considera insatisfatória a justificativa dada pela CBL para a desclassificação da obra Itinerário de uma Falsa Vanguarda, de Antonio Arnoni Prado, do Prêmio Jabuti 2011, e entende que a Comissão do Jabuti não fez nenhuma apreciação real sobre o conteúdo do livro. A Editora 34 julga que seu ineditismo pode ser comprovado pelo cotejo com a publicação da Brasiliense.”

A decisão do Jabuti foi tomada apenas com a obra de 2010 em mãos. 

***

Nesta semana, questionei a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e o Prêmio Jabuti sobre outro título, "A Mão Afro-Brasileira", original de 1988 e finalista em duas categorias deste ano. A editora, ciente das desclassificações anteriores, pediu ao Jabuti a retirada do livro dos finalistas. O Jabuti manteve a obra em projeto gráfico, mas o retirou da categoria artes, que ele liderava. De qualquer modo, a editora me mandou os livros para comparação. O que era um volume em 1988 virou agora dois volumes, com material bem mais amplo. 

Algumas questões cabem aqui. Uma delas é que o Jabuti, que neste ano anunciou sua maior mudança em anos (mais categorias, menos vencedores), ainda precisa rever muitas regras - por que, por exemplo, a "Poesia Completa" de Manoel de Barros pode concorrer, já tendo os poemas saído em outras edições, e um livro reformulado como o de Arnoni não pode? Outra é que, com categorias demais, a organização não consegue controlar o que é inscrito. As regras precisam ir se definindo ao sabor dos questionamentos. 

E ainda outra que há tempos me faz pensar: mas que bagunça infernal são no Brasil as fichas catalográficas de livros, levadas em conta no ato da inscrição em prêmios.

***

Quando falo de obras fora do regulamento, não é uma caça às bruxas. Casos como os citados acima e nos posts anteriores são apenas a ponta de um iceberg envolvendo uma discussão interminável sobre o mais tradicional prêmio literário do país. No afã de agradar ao maior número de segmentos editoriais, o Jabuti segue se desgastando - e, embora esse seja o prêmio da entidade que representa as editoras, uma honraria literária não diz respeito só ao mercado: tem a ver com estímulo à qualidade e ao trabalho criativo, com divulgação da produção nacional e com debate sobre literatura contemporânea.

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O coitadinho do jabuti da foto saiu dessa notícia aqui.

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Escrito por Raquel Cozer às 11h23

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O novo Kindle e a leitura como ainda a conhecemos

Na linha do tempo da Amazon, o Kindle tal como o conhecemos é coisa do passado. Estou falando do teaser do Kindle Fire, lançado hoje. No vídeo (acima), o "velho" Kindle surge como meio termo entre o livro de papel e o novo Kindle. O novo aparelho é "um Kindle para filmes, música, internet, jogos e leitura", diz o narrador, o que interpretei como "um Kindle para filmes, música, internet, jogos e para nunca mais você conseguir ler mais que três parágrafos de um livro sem parar para ver um e-mail."

Não vejo drama em e-readers ou tablets. Se não tenho Kindle até hoje, a culpa é da taxa de importação, que dobra o valor do negócio. Até fiquei esperando algum amigo ir pros EUA, mas pelo jeito não foi a melhor temporada de turismo por lá. O caso é que a certa altura concluí que, se um aparelho me faria largar o papel, seria o Kindle, e não o iPad.

Primeiro, para começar pelo menos óbvio, por causa do tamanho. Certa vez vi Paulo Coelho especular numa entrevista que o futuro da leitura está no celular. Até onde minha capacidade para a futurologia pôde alcançar, concordei. Cabe no bolso, não há o que discutir. O iPad seria o caminho para acostumar as pessoas a ler numa tela facilmente transportável. Mas ainda uma tela que não cabe no bolso.

Acontece que a leitura via celular seria para gerações mais evoluídas. Posso ler, por exemplo, a Folha quase toda na tela arranhada do meu smartphone, porque leitura de jornal é fragmentada. Nunca tentei ler um livro inteiro ali, mas acho que isso me causaria descolamento de retina.

Quando saiu o primeiro Galaxy Tab, no ano passado, vi nele o tamanho ideal, entre o iPhone e o iPad, como se fosse um livro pequeno. Quase comprei um, mas a falta de aplicativos me desanimou - a maioria das revistas e dos jornais bacanas só tinha versão para iPad.

Até então, eu nunca tinha segurado um Kindle. Ao ter um nas mãos, vi o segundo motivo para preferi-lo ao tablet como leitor eletrônico. Além de ser só pouco maior que o Galaxy Tab e, obviamente, de leitura mais confortável, ele não dava acesso fácil às distrações digitais. Uma tecnologia já meio defasada, dura, linda. Com um deles, daria para guardar a desatenção para o celular e concentrar na leitura.

O Kindle Fire anuncia que os defensores dos e-readers pré-tablet, como eu, perderam a batalha - a Amazon lançou hoje também dois outros modelos de Kindle à moda antiga, mas ninguém deu muita bola. Estamos por fora. A empresa de Jeff Bezos já sabe que a leitura do futuro será interrompida por avisos de mensagem no Gtalk, e não há nada que a concentração que nos resta possa fazer para evitar isso.

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Dito tudo isso, eu não seria nada infeliz com um iPad.

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Escrito por Raquel Cozer às 16h30

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Ray Bradbury e a arte da escrita

Ray Bradbury investiu US$ 9,80, em moedinhas de US$ 0,10, no primeiro esboço de "O Homem de Fogo", que se tornaria seu clássico "Fahrenheit 451" (1953). Era 1950 e o escritor foi obrigado pelas filhas pequenas, que não lhe davam paz, a migrar da garagem de casa para uma sala no porão da biblioteca na Universidade da Califórnia, em L.A. Ali alugou uma máquina de escrever, a dez centavos a meia hora, e ao fim de nove dias tinha 25 mil palavras - metade do tamanho que teria o romance.

"Que lugar, você há de concordar, para escrever um romance sobre a queima de livros no futuro!", ele recordou em 1982, em texto agora traduzido em "O Zen e a Arte da Escrita" (Leya), uma seleção de ensaios (tão informais que nem sei se cabe o termo ensaio) sobre seu ofício.

Não sou grande fã de ficção científica - meu lado menininho abriu exceção afetiva para Isaac Asimov, que conheci cedo na infância pelo meu irmão -, mas "O Zen e a Arte da Escrita" é quase nada sobre o gênero. É tipo autoajuda para escritores. "Lembre-se do pianista que dizia que, se não praticasse todos os dias, ele saberia; se não praticasse por dois dias, seus críticos saberiam; depois de três dias, seu público saberia", ele anota. Mesmo eu, mera jornalista metida a sofrer bloqueios criativos, me peguei fazendo dobrinhas-lembretes na pontas das páginas.

***

Nos textos de "O Zen e a Arte da Escrita", Bradbury volta com alguma frequência ao modo como vivências ficaram em seu subconsciente até, tempos depois, alcançarem o papel. É um discurso recorrente do autor - aparece também no prefácio para a boa versão em HQ de "Fahrenheit 451" ilustrada por Tim Hamilton, lançada há pouco pela Globo Livros.

"O que o leitor tem diante de si, agora, é mais do que o rejuvenescimento de um livro que já foi um pequeno romance, que já foi um conto, que já foi uma volta pelo quarteirão", diz Bradbury no prefácio. O embrião da história sobre bombeiros que incendiavam livros, ele diz, foi um passeio no Wilshire Boulevard, meses antes dos nove dias no porão da biblioteca.

O escritor caminhava com um amigo quando um carro da polícia os parou, querendo saber o que faziam na rua àquela hora. A resposta "dando uma voltinha" não bastou. "O guarda continuou querendo saber por que estávamos a pé, como se fazer uma caminhada tarde da noite fosse algo que se aproximava perigosamente da infração da lei." A inquisição rendeu uma volta irritada para casa, que por sua vez levou ao conto.

***

Apesar da intervenção policial como inspiração inicial para a história, Bradbury sempre disse que "Fahrenheit 451" não é sobre censura, e sim sobre como a televisão destrói o interesse pela leitura. Minha cena preferida da adaptação de François Truffaut, de 1966, é justamente aquela em que Linda (Helen, no livro) participa de um programa de TV "interativo". "Eles me mandaram meu papel esta manhã. Eles escrevem o roteiro com uma parte faltando. É uma nova ideia. A parte que falta é a que cabe a mim", explica Linda/Helen ao marido, o bombeiro Montag.

A parte que cabe a ela são respostas estimuladas por perguntas do gênero: "Isso deve ser assim, não deve, Helen?" É uma participação na narrativa no estilo das que os games permitem hoje, que dão ao jogador a falsa impressão de colaboração no roteiro - e que, preciso dizer, acho até interessante. Em plenos anos 50, era visionário.

Mel Gibson comprou nos anos 90 os direitos para um remake de "Fahrenheit 451", que nunca saiu. O prazo para a adaptação venceria neste ano. Não sei se lamento. Não sei se precisa de um remake. Acho que nenhum remake representaria a distopia de Bradbury com tanta autoridade quanto o filme retrô-futurista de Truffaut.

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Não posso encerrar sem confessar que nem sabia que Ray Bradbury ainda estava vivo até ler sobre seus 90 anos, em agosto do ano passado. Na ocasião, entrou na rede uma entrevista com ele e Hugh Hefner (fundador da "Playboy", que serializou "Fahrenheit 451" nos anos 50) que mostra que, se o autor não esbanja saúde, ao menos não perdeu o bom humor. "Acordo toda manhã e explodo. Vomito de manhã e limpo à tarde", foi a resposta sobre seus hábitos de escrita hoje.

Seja como for, Ray Bradbury segue uma referência. Como faz desconfiar este vídeo, que me chegou via Guilherme Brendler, meu colega na "Ilustríssima": "Fuck Me, Ray Bradbury", de Rachel Bloom, uma declaração apimentada de, hmm, amor ao "maior escritor de ficção científica da história". Bloom, comediante nova-iorquina, pôs depois disso em sua página no Facebook uma foto dela com o autor. Ray Bradbury não só viu o vídeo (foto abaixo) como sobreviveu para contar a história.

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Escrito por Raquel Cozer às 18h15

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abibliotecaderaquelRaquel Cozer, 33, é jornalista especializada na cobertura de livros e repórter da "Ilustríssima".


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